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Alex Steffen

Desastrado – a saga continua

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Digamos que o tempo não foi o seu aliado pois o corpo era uma coleção interminável de cicatrizes. Era calejado pela vida e os poucos cabelos que lhe restavam eram brancos. No meio cabeça uma marca imensa e três fios de cabelos puxados para o lado tentando disfarçar mais um sinal de desastre.

De carro se acidentara dezenas de vezes, mas nunca se ferira com gravidade, porém quando saía de sua casa os amigos solicitavam: avise, se você sair, nós ficaremos em casa.

Em comum com os tempos de juventude, além do azar, uma paixão desenfreada. Isso, se você tiver uma memória razoável deve recordar da moça que foi atingida por um cesto de pétalas de rosas. Pois bem, ela é o seu grande amor, e para a sua felicidade, amor correspondido.

No dia que casaram o padre tropicou na sineta e caiu sobre o coroinha. A aliança não era grande suficiente. E, devido a emoção, acabou pisando no vestido de noiva e deixando quase todo corpo da jovem esposa a mostra. Mas isso já é parte do passado. Agora que estão envelhecidos aprenderam a conviver com os desastres do dia-a-dia. Porém, por aquela ninguém esperava, ah, ninguém.

Deitados na cama em seu novíssimo e confortável colchão resolveram fazer uma inauguração. Sobre o criado mudo um abajur e um copo onde repousava tranquilamente a dentadura. Estavam na fase de carícias e esqueceram de se precaver, afinal, fazia poucos meses que ele havia trocados os pinos que tinha na perna esquerda (quebrara o fêmur quando ficou trancado na porta giratória do banco). A emoção era tanta em inaugurar com sua amada o caríssimo colchão de molas que tudo ficou no esquecimento. Aquecera a libido e ambas já arfavam de prazer, os toques eram cada vem mais calientes e ele lembrou-se de um detalhe que ela adorava. Foi ao banheiro, correndo, e quando de lá retornou com um creme caseiro escorregou no tapetinho, tentou se aparar no criado mudo, queimou a mão ao tocar a lâmpada incandescente e, pra piorar ainda mais, quebrou o copo, derrubando a dentadura. Sentou na cama desolado, afinal todo tesão terminara, porém nada está tão ruim que não possa piorar. Ela, impregnada pela onda de azar, levantou para buscar uma pomadinha para a queimadura. Quando voltava para o quarto, escorregou na poça de água, pisou na dentadura e caiu sobre o marido. O tesão estava aflorando e eles trataram de inaugurar o novo colchão, sem se importar com a queimadura e nem com a dentadura. Durante trinta minutos tiveram prazeres, como na juventude, inaugurando o colchão em grande estilo, porém, na hora de levantar ele percebeu algo errado: a perna estava trancada no colchão como que atada. Uma das molas havia estourado, afinal, eram mais de duzentos quilos de prazer gemendo sobre a cama, fazendo com que o colchão arrebentasse e a mola enroscasse na perna. Lá foi ela para o telefone chamando pelos bombeiros. A cena encontrada era das mais inusitadas: um homem velho, gordo, nu, ainda excitado e com a perna emaranhada nas molas do colchão. Ele foi retirado dali e colocado em uma maca, e quando o bombeiro chefe saia puxando o veículo de socorro ele, também ele, caiu, pisando em alguns dentes que se espalhavam pelo chão.

Os dois foram para o hospital e, enquanto isso, a mulher chamou o dono da loja de colchões, que não quis acreditar no que ouviu. Aceitou trocar o produto e levou para a casa um colchão d’agua. Certamente ele não conhecia a onda de azar e tudo que poderia ocorrer dentro daquele quarto. Quem viver, verá!

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Alex Steffen

Toque de divindade: uvas de mesa te esperam

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Como quem está na Capela Sistina, no Vaticano, vendo a mão de Deus e a mão do homem prestes a se tocarem, ali, sentados, em meio a um gramado, com uma cesta de piquenique, famílias desfrutam da simplicidade e da quase perfeição. O toque de divino no trabalho incansável das famílias Freiberger e Andrioli faz com uma nova safra seja apresentada.
As uvas de mesa, de encanto visual, aroma ímpar e sabor sem igual, em 2025, surgem ainda mais vigorosas. Cachos irretocáveis convidam sem dizer uma palavra. Sim, são instagramáveis. Sim, aceitam ser pano de fundo nos cenários, quando poderiam muito bem ser personagens principais. Tão diferentes em suas cores e formatos, as uvas, em meio às parreiras muito bem cuidadas, encantam em harmoniosa convivência. Diferenças há também nas reações de quem visita o local e faz a sua visita guiada. Porém, todos, sem exceção, vivem uma experiência única.
E dentro deste espírito inovador e empreendedor, em 2025, surge uma novidade: a possibilidade de fazer um piquenique na propriedade. Desde o último final de semana de janeiro – nas sextas, sábados e domingos – é possível, através de reserva prévia, celebrar a vida de uma maneira única. Cestas personalizadas, para duas ou quatro pessoas são preparadas e convidam à uma viagem multissensorial num encontro com a paz interior.
Para ir colher uvas, não é preciso fazer reserva de horário, mas é recomendável esperar muito não, afinal, a procura pelo paraíso das uvas é muito grande. O trabalho de um ano inteiro, por vezes, é colhido em poucas semanas, assim, coloque na sua agenda uma visita ao local. E tem até um chopp da Uffenberg por lá para quem quer estender um tanto mais. Ir ao Vaticano para ver as obras de Michelangelo é inviável para a grande maioria de nós, mas ir a Alto Feliz e ver uma obra prima humana e divina está bem mais próximo da nossa realidade. Permita-se.
Serviço:
Colheita de Uvas de Mesa (uma experiência a ser vivida)
Variedades: Isis, Núbia, Vitória, Melodia, Benitaka, Rubis, Rainha Itália e Bananinha.
Onde: Frutícola e Viveiro de Mudas Freiberger e Andrioli
Endereço: Estrada do Arroio Jaguar, Canto Canela, Alto Feliz
Fone de contato: 51 99984.4232
A partir de 14 de fevereiro de 2025
Texto e fotos Alex Steffen

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Alex Steffen

Silencia-se a voz de Luís Orlando Calliari

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Quando jovem Luís Orlando Junqueira Calliari, o Pitti, subia no palco do Seminário de Bom Princípio e vencia um festival de música, apresentando uma composição sua. Deixando evidente a sua fé em Deus, seguiu e a vida abraçado em seu inseparável violão. Neste 30 de janeiro de 2025, depois de muita peleia, o gaudério sossegou. A voz que cantava gauchescas, gospel e sertanejas seguirá apenas na memória dos familiares, amigos e fãs.

Formado advogado, Luís Orlando era icônico em Barão, sendo muito conhecido também em Carlos Barbosa, Garibaldi, e nos municípios do vale do Caí. Uma daquelas figuras únicas, inesquecíveis. De personalidade forte, tal a sua voz, pouco se importava com riqueza ou simplicidade. Queria viver a vida! E foi uma vida pra lá de intensa. Aos 52 anos, ele que foi vendedor de carros, orgulhoso pai de duas meninas, partiu à morada eterna. Rompeu as brumas do céu e subiu até Deus, ao qual era temente.

Muito menino estudou para padre em Salvador do Sul e Bom Princípio. Lá conheceu muito da vida e por completa se apaixonou pela música. Tocava e cantava como poucos. Em sala de aula, quando dava trégua ao violão, fazia tudo rapidinho, garantia notas altas, e logo mais estava ele, com uma cuia e o amigo de seis cordas.

Havia tempos que buscava pela recuperação de sua saúde, mas tinha a certeza de que a sua passagem pela vida era curta. Tinha esperança de rever amigos e com eles cantar. E isso fez até dentro do hospital. Perdeu vitalidade, vigor, mas não alegria.

Fez hoje, realidade, uma das músicas que mais gostava de interpretar, e somos nós, amigos que chorosos dizemos: Saudade vai, vai, vai! Saudade vem, vem, vem te buscar, Pitti!

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Alex Steffen

Salvador do Sul dá adeus à sua primeira vereadora

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A vida pública também tem os seus ícones, aqueles que, mesmo em silêncio, escrevem a sua história. E assim o fez Sidonia Maria Poersch da Rosa. E de maneira discreta também deu o seu último suspiro ao cair da tarde desta quarta, dia 29 de janeiro de 2025.

A mulher que veio do interior para a cidade muito jovem, buscou nos concursos públicos o seu espaço, não tendo vergonha de dizer que assumiu o seu primeiro cargo público como faxineira. Poderia ser retrato de submissão. Poderia, mas não para Sidonia, que tinha já na década de 1980, em seu olhar, o significado da expressão que foi popularizada muitas décadas depois. Era, sim, Sidonia, a face do empoderamento feminino. Muitos poderiam se perguntar: “mas onde já se viu uma mulher que foi faxineira querer ser vereadora?”. Pois bem, não só quis, como conseguiu. Orgulhava-se em dizer que foi a primeira mulher a ser eleita em Salvador do Sul. Esteve no legislativo entre 1983 e 1988, isso é, por seis anos completos, erguendo bandeiras. Abriu caminho para outras mulheres como vereadoras e também prefeita. Em 2013, nos 50 anos de Salvador do Sul, deu entrevista e vibrava com o título da reportagem: “Um batom no Legislativo”. Era grata pelo reconhecimento obtido.

Ia às escolas palestrar, não sobre política, mas sobre possibilidades e lutas. Fez supletivo para terminar o Ensino Médio, antes não tivera oportunidade. Foi fazer vestibular para a área de Direito. E, claro, passou. Cursou faculdade e trouxe para casa, em Salvador do Sul, o seu diploma. Havia vencido mais uma batalha.

Casada com o professor Luiz Mello da Rosa, fez de tudo para oportunizar à filha Bruna, o que ela mesmo não tivera. Valorizava o estudo, a cultura, o conhecimento amplo…

No último final de semana apresentou um problema súbito de saúde e foi levada ao hospital. Transferida para Caxias do Sul e não mais viu a sua Salvador do Sul.

Aos 78 anos partiu à morada eterna e nesta quinta terá o povo a oportunidade de dizer, obrigado e até breve, àquela que foi pioneira em terras salvadorenses.

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